Márcio Coelho*
O
movimento não saiu da torre, entrou para sua história.
O Estado Democrático de Direito tem entre suas premissas básicas a cidadania
transpassada pela livre atuação política. Neste contexto, diferente de tempos
atrás, política e cidadania se insere e se discute sim.
A consolidação
da Democracia, e, por conseguinte dos direitos civis, políticos e sociais para
todos(as), ou seja a cidadania, é cada vez mais é posta em cheque. Exemplo
disso é a necessidade urgente de reconfiguração das Universidades
Públicas, para que possam, entre outras demandas, catalisar os avanços promovidos pelas políticas de reserva de vagas no ensino superior.
A atual lógica de inserção/inclusão dos pobres, índios e negros nas universidades trás consigo uma nova complexidade cultural e social, que só pode ser absorvida, entendida e atendida pelas instituições através de reformulações estruturais, análises socioeconômicas e políticas
sociais efetivas.
É nesta perspectiva que uma política de ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL – que surge de uma das dimensões
da cidadania, dos direitos sociais para ser mais exato – se torna tão
importante para a eficácia e eficiência das medidas de inclusão dos grupos que em outros
tempos não faziam parte do reino da
intelectualidade.
A permanência dos “hipossuficientes
financeiramente”, nomenclatura rica e sofisticada para apontar os pobres, só pode
ser concretizada através de uma série de ações complementares e intersetoriais
- que acontecem precariamente ou não acontecem na Universidade Estadual de Santa Cruz. É neste viés que o
exercício da cidadania e a mobilização política são necessários, para que haja
a devida pressão e assim se expresse claramente a urgência de ações que
garantam o direito à Educação.
Na Universidade Estadual de Santa Cruz as demandas
por uma ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL são gritantes. São diversos os problemas, mas um,
salta aos olhos e ao estômago. É o caso do Restaurante Universitário, sempre com filas
enormes; numero reduzido de refeições subsidiadas (era apenas 450 no inicio das
manifestações); estrutura física ultrapassada; preço alto, não condizente com a
realidade dos estudantes (R$7,00 o prato) além da qualidade do serviço e comida
questionáveis.
Estes fatores despertaram nos estudantes da UESC a
necessidade de movimentação para solucionar ou equilibrar estes problemas.
Neste sentido as pautas de reivindicação começaram a ser construídas, assim
como os mecanismos de pressão/ação política.
No Dia 25 de
fevereiro de 2014, os estudantes colocaram em prática “I ATO POR UM R.U. POPULAR”: foi
realizada uma marcha pelo campus; a subida na torre
administrativa; o almoço simbólico, pão com mortadela, com a Reitora e a
apresentação das reivindicações.
Pode-se dizer que a partir de então o canal de diálogo entre o Movimento POR UM R.U. POPULAR e a Reitoria passou a existir. No entanto, é
preciso ressaltar que nas primeiras rodas de negociações não houve avanços nas
pautas, O MOVIMENTO FALAVA, MAS NÃO ERA OUVIDO.
É preciso perceber que as relações humanas são
inerentemente políticas. Bobbio(2000) ressalta que: “os fins da política
são tantos quantas forem as metas a que um grupo organizado se propõe, segundo
os tempos e as circunstâncias”.
É então no II ATO POR UM R.U. POPULAR (27 de março
de 2014) que a atuação política do movimento, que unificou forças do movimento
estudantil e um grande número de estudantes independentes, partiu fatalmente para a luta a fim de garantir resultados reais.
É este o contexto da Ocupação da reitoria da UESC, “A Povotoria”, que provou
o quanto à mobilização para busca e a efetivação de direitos pode transformar
nossa realidade. A cidadania e a política são faces de uma mesma moeda que
devem ser constantemente exercidas e vivenciadas.
É nesta perspectiva que esta ação contundente se mostrou
necessária, a partir não dá falta de diálogo, mas da falta de atitudes da administração da Universidade. Ainda
assim, existe uma amplitude de visões da comunidade acadêmica sobre a ocupação, que vão desde “muito radical” até “muito leve”.
É importante ressaltar que a política abrange-se por todos os campos em que é necessária a relação, discussão e organização entre pessoas, bens e direitos - tanto na dimensão cultural quanto social - que interligados precisam de delimitação e ordem, numa tessitura de conflito, dissenso e/ou consenso dos seus membros, através da persuasão e/ou dissuasão para o alcance de determinados fins. Estas imbricações, de relações sociais, se fazem através da interdependência e sistematização, institucionalizada ou não, nas formas mais diversas de organizações sociais.
É importante ressaltar que a política abrange-se por todos os campos em que é necessária a relação, discussão e organização entre pessoas, bens e direitos - tanto na dimensão cultural quanto social - que interligados precisam de delimitação e ordem, numa tessitura de conflito, dissenso e/ou consenso dos seus membros, através da persuasão e/ou dissuasão para o alcance de determinados fins. Estas imbricações, de relações sociais, se fazem através da interdependência e sistematização, institucionalizada ou não, nas formas mais diversas de organizações sociais.
Vale enfatizar ainda o caráter dialético e
dialógico da ação política no sistema democrático. E por isso deve se dizer que
o movimento foi vitorioso, pois:
·
O
numero de pratos subsidiados para o almoço duplicou (são agora 900);
· O R.U.
abrirá nos outros turnos, haverá também café da manhã e jantar(mais 200 pratos
subsidiados em cada um destes turnos);
·
Será
realizada uma reestruturação física do restaurante,
·
Será
reativada a comissão para fiscalização do restaurante,
·
Haverá
representação estudantil para acompanhar o processo de licitação da próxima
empresa, entre outros avanços.
Na
democracia é preciso entender os conflitos, a importância do tensionamento, mas
também compreender a necessidade do diálogo e analise de conjuntura.
Assim pode-se dizer que o movimento não saiu da
torre, entrou para sua história. O legado desta mobilização tem um lastro sincrônico, uma vez
que ainda será por muito tempo realidade e perspectiva para estruturação de um
projeto de universidade que reflita sobre as necessidades reais - onde é
possível ações propositivas, positivas e efetivas - para atender as demandas dos
estudantes, que agora também veem do “povo”. De resto e certo, mais uma vez
ficou claro que a luta pode transformar expectativas em realidade.
“O maior castigo para quem não gosta de política é
ser governado pelos que gostam". Arnold Toynbee (1889-1975)
*É técnico em processamento de dados;
Graduando em Ciências Sociais na UESC, está coordenador de finanças do Centro
Acadêmico, Representante discente no Departamento Filosofia e Ciências Humanas;
Conselheiro no Conselho Superior de Ensino Pesquisa e Extensão, membro da
comissão de negociação por um R.U. Popular.

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