domingo, 30 de março de 2014

Movimento estudantil



A “POVOTORIA”

Márcio Coelho*
             O movimento não saiu da torre, entrou para sua história.

O Estado Democrático de Direito tem entre suas premissas básicas a cidadania transpassada pela livre atuação política. Neste contexto, diferente de tempos atrás, política e cidadania se insere e se discute sim.
 A consolidação da Democracia, e, por conseguinte dos direitos civis, políticos e sociais para todos(as), ou seja a cidadania, é cada vez mais é posta em cheque. Exemplo disso é a necessidade urgente de reconfiguração das Universidades Públicas, para que possam, entre outras demandas, catalisar os avanços promovidos pelas políticas de reserva de vagas no ensino superior.
A atual lógica de inserção/inclusão dos pobres, índios e negros  nas universidades trás consigo uma nova complexidade cultural e social, que só pode ser absorvida, entendida e atendida pelas instituições através de reformulações estruturais, análises socioeconômicas e políticas sociais efetivas.
É nesta perspectiva que uma política de ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL – que surge de uma das dimensões da cidadania, dos direitos sociais para ser mais exato – se torna tão importante para a eficácia e eficiência das medidas de inclusão dos grupos que em outros tempos não faziam parte do reino da intelectualidade.
A permanência dos “hipossuficientes financeiramente”, nomenclatura rica e sofisticada para apontar os pobres, só pode ser concretizada através de uma série de ações complementares e intersetoriais - que acontecem precariamente ou não acontecem na Universidade Estadual de Santa Cruz. É neste viés que o exercício da cidadania e a mobilização política são necessários, para que haja a devida pressão e assim se expresse claramente a urgência de ações que garantam o direito à Educação.

Na Universidade Estadual de Santa Cruz as demandas por uma ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL são gritantes. São diversos os problemas, mas um, salta aos olhos e ao estômago. É o caso do Restaurante Universitário, sempre com filas enormes; numero reduzido de refeições subsidiadas (era apenas 450 no inicio das manifestações); estrutura física ultrapassada; preço alto, não condizente com a realidade dos estudantes (R$7,00 o prato) além da qualidade do serviço e comida questionáveis.
Estes fatores despertaram nos estudantes da UESC a necessidade de movimentação para solucionar ou equilibrar estes problemas. Neste sentido as pautas de reivindicação começaram a ser construídas, assim como os mecanismos de pressão/ação política.
 No Dia 25 de fevereiro de 2014, os estudantes colocaram em prática “I ATO POR UM R.U. POPULAR”: foi realizada uma marcha pelo campus; a subida na torre administrativa; o almoço simbólico, pão com mortadela, com a Reitora e a apresentação das reivindicações.
Pode-se dizer que a partir de então o canal de diálogo entre o Movimento POR UM R.U. POPULAR  e a Reitoria passou a existir. No entanto, é preciso ressaltar que nas primeiras rodas de negociações não houve avanços nas pautas, O MOVIMENTO FALAVA, MAS NÃO ERA OUVIDO.
É preciso perceber que as relações humanas são inerentemente políticas. Bobbio(2000) ressalta que: “os fins da política são tantos quantas forem as metas a que um grupo organizado se propõe, segundo os tempos e as circunstâncias”.
É então no II ATO POR UM R.U. POPULAR (27 de março de 2014) que a atuação política do movimento, que unificou forças do movimento estudantil e um grande número de estudantes independentes, partiu fatalmente para a luta a fim de garantir resultados reais.   
É este o contexto da Ocupação da reitoria da UESC, “A Povotoria”, que provou o quanto à mobilização para busca e a efetivação de direitos pode transformar nossa realidade. A cidadania e a política são faces de uma mesma moeda que devem ser constantemente exercidas e vivenciadas.
               É nesta perspectiva que esta ação contundente se mostrou necessária, a partir não dá falta de diálogo, mas da falta de atitudes da administração da Universidade. Ainda assim, existe uma amplitude de visões da comunidade acadêmica sobre a ocupação, que vão desde “muito radical” até “muito leve”. 
               É importante ressaltar que a política abrange-se por todos os campos em que é necessária a relação, discussão e organização entre pessoas, bens e direitos - tanto na dimensão cultural quanto social -  que interligados precisam de delimitação e ordem, numa tessitura de conflito, dissenso e/ou consenso dos seus membros, através da persuasão e/ou dissuasão para o alcance de determinados fins. Estas imbricações, de relações sociais, se fazem através da interdependência e sistematização, institucionalizada ou não, nas formas mais diversas de organizações sociais. 
Vale enfatizar ainda o caráter dialético e dialógico da ação política no sistema democrático. E por isso deve se dizer que o movimento foi vitorioso, pois:
·        O numero de pratos subsidiados para o almoço duplicou (são agora 900);
·  O R.U. abrirá nos outros turnos, haverá também café da manhã e jantar(mais 200 pratos subsidiados em cada um destes turnos);
·        Será realizada uma reestruturação física do restaurante,
·        Será reativada a comissão para fiscalização do restaurante,
·        Haverá representação estudantil para acompanhar o processo de licitação da próxima empresa, entre outros avanços.

 Na democracia é preciso entender os conflitos, a importância do tensionamento, mas também compreender a necessidade do diálogo e analise de conjuntura.
Assim pode-se dizer que o movimento não saiu da torre, entrou para sua história. O legado desta mobilização tem um lastro sincrônico, uma vez que ainda será por muito tempo realidade e perspectiva para estruturação de um projeto de universidade que reflita sobre as necessidades reais - onde é possível ações propositivas, positivas e efetivas - para atender as demandas dos estudantes, que agora também veem do “povo”. De resto e certo, mais uma vez ficou claro que a luta pode transformar expectativas em realidade. 

  “O maior castigo para quem não gosta de política é ser governado pelos que gostam". Arnold Toynbee (1889-1975)


*É técnico em processamento de dados; Graduando em Ciências Sociais na UESC, está coordenador de finanças do Centro Acadêmico, Representante discente no Departamento Filosofia e Ciências Humanas; Conselheiro no Conselho Superior de Ensino Pesquisa e Extensão, membro da comissão de negociação por um R.U. Popular.

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