domingo, 31 de agosto de 2014

Eleição

O voto útil, estamos no Big brother?
Fonte:https://www.facebook.com/vitortegom/photos/a.232922050183626.1073741828.232492200226611/438676949608134/?type=1&theater

A analogia se justifica não pela trajetória histórica do reality show e/ou campanhas políticas, mas pelo apelo anti-petista e personalista esvaziado do componente crítico, influenciado por uma boa parcela da mídia nativa.
Não penso, não digo que o PT não mereça críticas, muito pelo contrário. Mas comparar a perspectiva de mudanças da trajetória da vitória de 2002, mesmo com as mudanças programáticas que o PT já apontava na época, com a eleição de agora é um pouco sem sentido e anacrônico. O posicionamento político é importante tanto para negar ou para afirmar algo. Mas, não sei até onde tenha utilidade a falta de reconhecimento da realidade social que o país atravessa hoje: temos avanços e estes são frutos de posicionamentos políticos, desde as políticas de redistribuição de renda até um arrefecimento na ordem neoliberal.
Concordo ampla e plenamente que a alienação é dos principais componentes da política, não apenas aqui no Brasil, mas em qualquer país do mundo. De outra forma, por mais que haja a percepção que a “vida” melhorou, existe um ideário onde imperam apenas críticas e que todas as mazelas que existem no Brasil foram iniciadas em 2002.

Conscientização é necessária, ou pelo menos o mínimo de cuidado nas escolhas. Partir como manada em uma direção a esmo é de todas as formas complicado (por vezes acontece mesmo com os militantes “iluminados” ditos de “esquerda"). Acredito que precisamos de transformações urgentes, no entanto, neste caso, diferente de 2002, existe um sentimento retrógrado e revanchista que está encravado neste discurso de “mudança”. Este discurso na verdade esconde e dissimula uma política "neoliberal puro sangue" que tantos prejuízos trouxe para o Brasil nos anos 90 e hoje assola a Europa.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Movimento Negro

Movimento Negro, Cabelos Crespos e a mídia brasileira – parte 2.

A lógica midiática, oportunista e dissimuladamente racista em sua estrutura, tem como resultado por um lado o sujeito negro emulando a estética apresentada na televisão (cabelos, vestimentas, gírias e etc.). Mas por outro, não apresenta negros (com estes atributos estéticos) em posições de destaque seja em sua programação geral e/ou nas tramas dramatúrgicas – com exceção de ser como o vilão/assaltante/favelado e como a empregada/domestica que é “quase da família”.
São décadas de denúncias a respeito dos insistentes, constantes e repetidos personagens com posições subalternas e/ou marginais nas tramas das novelas. Ainda assim, pouquíssimas são as mudanças neste cenário.
    A referenciação quanto a “bons exemplos” poderia – mesmo que superficialmente, já que funciona em termos estéticos – abrir concorrência ao mundo do crime, bem como alargar os horizontes para a educação. Nesta perspectiva, para os jovens, ver negros como protagonistas com profissões alçadas pela escola/educação (professores, advogados, médicos, engenheiros e etc.) e não apenas jogadores de futebol ou modelos – nada essencialmente contra estes profissionais – seria importante tanto para resistir ao assédio do crime, como ao desinteresse pelos estudos. 
Esta sempre foi uma demanda importante e agora, com esta geração cada vez mais imagética, se torna ainda mais primordial. Alguns podem dizer que tal demanda não representaria a realidade social, argumento totalmente impróprio. Existem negros em posição de destaque em nossa sociedade, infelizmente graças a nossa estrutura, em menor proporção e com salários mais baixos que os brancos, mas existem. E só não existem mais, pelo nosso racismo estrutural. Em contrapartida, desde quando as peças novelescas globais estão atreladas a realidade? Encontrar verossimilhança nas novelas é um trabalho de garimpo, nos dias atuais, em serra pelada.
Vivenciamos a tergiversação dessa e de outras demandas há muito elencadas pelo movimento negro em relação a mídia, principalmente a televisiva. Ao mesmo tempo, consoante com isso, o que acontece é o fortalecimento cada vez maior dos estereótipos raciais a exemplo do recém lançado programa "sexo e as nega".(Continue lendo...)

domingo, 10 de agosto de 2014

Movimento Negro

Movimento Negro, Cabelos crespos e a mídia brasileira - Parte I.


Foi e é árdua a luta dos movimentos negros pelos direitos de cidadania e identidade, colocando-se nessa última o pacote de suas orientações religiosas/religiosidade até a aceitação da estética negra como sinônimo, também, de beleza.
Caso interessante perpassa atualmente pela estética negra. Nos últimos anos a afirmação dos cabelos crespos, encaracolados ou black powers vem crescendo vertiginosamente, em proporção direta ao número de artistas que agora ostenta a cabeleira “natural”. É preciso ressaltar que esta é uma luta de anos do movimento negro, mas que só foi abarcada pela população graças a mídia televisiva.
Dos poderes imperativos que conformam a mídia brasileira (principalmente o canal do "plim plim") alguns perderam força, outros no entanto se robusteceram ainda mais pela ótica multiculturalista, a dizer principalmente no que tange as tendências da moda. 
Para muitos a influência da mídia na vida das pessoas é quase inócua e que as superfinanciadas novelas nada tem a ver com a população e suas predileções seja politicas, identitárias e etc. Sem querer entrar no maniqueísmo de sua função social, vemos e sentimos no dia-a-dia as reverberações das novelas que atualmente ocupam praticamente a grade de programação inteira da emissora com maior audiência do país.
A assunção dos cabelos crespos principalmente no caso das mulheres, parcela que mais diretamente é pressionada pela padronização caucasiana do corpo, é um ato de empoderamento que em todos os casos deve ser celebrado.

Entretanto, além obviamente de ser um fenômeno interessante, principalmente, para os negros, também demonstra a força tanto de assimilação quanto de manipulação da mídia “tradicional” em relação as demandas da sociedade. É notório que este fenômeno se popularizou a partir do surgimento na televisão de sujeitos empoderados ou não com os “cabelos assumidos”.
Explico mais uma vez que não é uma orientação que surgiu do nada, como disse acima, o Movimento Negro (e também de mulheres) lutou e luta pela aceitação de sua "liberdade estética" pela sociedade. Neste caso o que é temerário é cooptação da demanda histórica, que na verdade sempre teve um caráter no mínimo triplo, seja o propriamente estético, mas também, e da mesma forma importante, cultural e político. 
No viés que se manifesta os “cachos”, em grande parte dos casos, privilegia-se apenas o lado estético, que é de todas as formas importante, mas não suficiente. É necessário o fortalecimento multidimensional da identidade negra numa ótica de reconhecimento do sujeito negro e a contestação da concretude de subordinação que ainda se mantém, e em outros aspecto, como pensa Frantz Fanon, da liberdade de escolha e opções estéticas/politicas enquanto ser humano.  

Num país onde impera um racismo estrutural e tácito, é importante o posicionamento estético dos negros, mas também é necessária a politização e conscientização do cenário racista em que estamos inseridos. Não podemos nos afundar ainda mais nas garras dos simulacros de identidade que transfiguram uma demanda legítima em apenas mais um item de consumo. O vínculo com a realidade deve ser peça viva em detrimento do que Baudrillard vai chamar de hiper-realidade (simulacros de simulacros onde a ação não mais tem a ver com o sujeito ou objeto em si, é apenas encenação vazia). Um perigo concreto que vivemos, ainda mais com a cooptação de pautas de movimentos sociais, sejam clássicos ou novos.