ISSO É POLÍTICA?
“O
maior castigo para quem não gosta de política é ser governado pelos que
gostam". Arnold Toynbee (1889-1975)
Em tempos de consolidação da Democracia, e por conseguinte, Direitos civis,
políticos e sociais (liberdade de expressão, lutas por
igualdade, seja social, racial e de gênero) o termo política é cada vez mais usado - desempenhado destaque em qualquer discussão. O Estado Democrático de Direito tem como premissa básica
a cidadania transpassada pela livre atuação política. Neste contexto, diferente
de tempos atrás, política se insere e se discute sim, talvez, não da forma "ideal", mas se discute.
A política abrange-se por todos os campos da humanidade em
que é necessária a relação, discussão e organização entre pessoas, bens e direitos - tanto na dimensão cultural quanto social- que interligados precisam de delimitação e ordem, numa tessitura de conflito, dissenso e/ou consenso dos seus membros, através da persuasão e/ou dissuasão para o
alcance de determinados fins. Estas imbricações, de relações sociais, se fazem
através da interdependência e sistematização, institucionalizada ou não, nas
formas mais diversas de organizações sociais ao longo da história.
Qualquer sociedade é inerentemente política, ou ainda,
qualquer relação humana é política, o que muda é “modus operandi”, ou seja, são as maneiras que esta política é implementada e/ou usada.
As diversas culturas que
habitam (ou já habitaram) nosso planeta utilizam mecanismos políticos para entender e atender os diversos anseios, demandas e conflitos de seus partícipes. Bobbio
(2000) irá ressaltar que: “os fins da
política são tantos quantas forem as metas a que um grupo organizado se propõe,
segundo os tempos e as circunstâncias”. Este mesmo autor estabelecerá uma
relação direta entre poder e política, derivando-os em poder econômico, poder
ideológico, poder político entre outros, mas ressalta que apenas o político “funda-se
sobre a posse dos instrumentos através dos quais se exerce a força física
(armas de todo tipo e grau): é o poder coativo no sentido mais estrito da
palavra”.
Durante toda a
História da humanidade, muitos valeram-se da política, ou do poder político, para comandar/liderar e desta forma obter
riquezas; escamotear a liberdade e os direitos de outros. Isto se deu através da articulação inerente entre poder e política, do poder de persuasão/carisma/liderança, mas, principalmente por meio da
força/repressão, que sempre ajudou, inúmeras e incontáveis oportunidades, a transformar diversos personagens da História em déspotas.
A institucionalização de funções e órgãos, as lideranças
despóticas, carismáticas, legitimadas, populistas e etc. são, pois, produto e
condição da estrutura política, Weber diz que:
Há duas formas de exercer
política. Pode-se viver “para” política ou pode-se viver “da” política. Nada há nada de exclusivo nessa dualidade. Até o contrário, geralmente se faz uma e outra
coisa simultaneamente, tanto na idealidade quanto na prática.”(WEBER, 2009,68)
A política nestes contornos, se transformou
em ferramenta de controle, cerceamento e opressão de povos. Aliando-se a outras
forças (religião, preconceitos, interesses econômicos e etc.) legitimou de
grandes obras a grandes genocídios, de grandes empreendimentos a grandes
destruições. Por isso, muitos pensadores tentaram encontrar
soluções para refrear a sede de poder dos homens através de teorias políticas.
Passamos contemporaneamente por um Estado político bem
delimitado, instituições e órgãos, na maioria ou na teoria, bem definidos. Apesar
de não ser perfeita a instituição dos Três Poderes (executivo, Legislativo e
Judiciário) como proposta por Locke e Montesquieu, é seguida por muitos e diversos
países em todo o globo. Da forma como foi pensado, tem como objetivo que
a política/poder não se torne arma nas mãos de poucos e que estes venham usá-la
contra o povo/maioria. Montesquieu (1996, p. 166), pensando nisto, relata que, “para
que não se possa abusar do poder é necessário que, pela disposição das coisas, o
poder trave o poder”. Claro que sua teoria estava norteada
pela manutenção do status quo de sua
classe aristocrata, decadente a época, uma vez que a moderação e limitação são
premissas essenciais para manter o equilíbrio e a passividade de uma sociedade.
No entanto, muitos outros, ao contrario de Montesquieu, propuseram
uma ruptura com o sistema político e econômico vigente. Dentre estes destaca-se Karl Marx e sua sociedade “sem classes” e sem “exploração do homem pelo homem”.
Ele diz:
“No lugar da antiga sociedade burguesa com suas classes e
oposições de classe surge uma associação
em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre
desenvolvimento de todos.”(Marx e Engels, 2001, p.62)
Seu sistema teve como protótipo
os levantes na França em 1948 que culminaram com o que ele chamou de 18 de Brumário de Luis Bonaparte[1]
na frança. No entanto é em 1917 com a Revolução na Russa, com Marx já falecido,
que se engendra o primeiro empreendimento socialista/comunista da história que
será esteio não apenas de uma nova visão sobre o modo de produção da sociedade,
mas pautará a política em todas as suas formas, o eminente historiador Hobsbawm dirá que:
“Contudo, a Revolução de Outubro teve
repercussões muito mais profundas e globais que a sua ancestral. Pois se
as ideias da Revolução Francesa, como é hoje evidente, duraram mais que o bolchevismo,
as consequências práticas de 1917 foram muito maiores e mais duradouras que as de
1789. A Revolução de outubro produziu de longe o mais formidável movimento
revolucionário organizado da história moderna. Sua expansão global não tem
paralelo desde as conquistas do islã
em seu primeiro século. Apenas trinta ou quarenta anos após a chegada de
Lenin a estação Finlândia em Petrogrado, um terço da
humanidade se achava vivendo sob o regimes diretamente derivados[...] do modelo
organizacional de Lenin, o partido comunista.” (HOBSBAWM, 1995, P.62)
O Bloco Socialista, mesmo com todos os
equívocos, conseguiu - pelo menos durante quase um século - contrapor-se, politicamente, ao liberalismo/capitalismo e ser contra-hegemônico na dominação
burguesa. Sua influência atingiu praticamente todo o globo e foi fator essencial para conquistas dos
direitos civis, políticos e sociais que confluem para cidadania e para prática
pluralista da política atual.
Com o fim do bloco socialista, em 1989, e a chamada
multipolarização do mundo, os rumos da política
e sua pluralidade como defende Hannah Arendt, tiveram seus caminhos alterados.
As ditas “relações políticas” se tornaram cada vez mais protagonistas no jogo
de interesse nos diversos países no mundo. O modelo político socialista - cabe
ressaltar as diversas vertentes, não apenas a soviética - continuou e continua
como caminho político alternativo para o modelo em que vivemos, pois não apenas
os modos de produção são antagônicos
e dicotômicos em sua concepção, mas também a forma como a política é encarada, em
outros extratos e contextos, a exemplo da economia, cultura, arte e os demais ramos
da sociedade.
Entre as mais
diversas definições de política, a grande maioria dos pensadores e teóricos destaca o poder de sua compreensão e suas implicações sobre os mais diversos povos e sociedades. Os rumos de qualquer sociedade e da historia em
si passa pela política.
MARX & ENGELS. Manifesto do partido comunista. LPM pocket, Floresta,
2001.
BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a filosofia
política e as lições dos clássicos. Tradução de Daniela Beccaccia Versiani. 11.
ed. Rio de Janeiro: Elsevier,2000.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret,
2009.
HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos: o breve século XX.
1941-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
ARENDT, Hannah. O que
é política. (editoria Ursula Ludz). 8ª ED. Rio de Janeiro.: Bertrand Brasil,
2009.
[1]
O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (em alemão:
"Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte"), escrito
entre dezembro de 1851 e março de 1852, publicado originalmente na revista Die
Revolution, parte da análise concreta dos acontecimentos revolucionários
em França, entre 1848 e 1851, que levaram ao golpe de estado pelo qual Napoleão III se nomeou imperador, à semelhança de seu tio
Napoleão. (Disponivel em:< http://pt.wikipedia.org/wiki/O_18_de_Brum%C3%A1rio_de_Lu%C3%ADs_Bonaparte>
Acessado em: 23.05.2013)
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