sábado, 8 de junho de 2013

Política

ISSO É POLÍTICA?

“O maior castigo para quem não gosta de política é ser governado pelos que gostam". Arnold Toynbee (1889-1975)

              Em tempos de consolidação da Democracia, e por conseguinte, Direitos civis, políticos e sociais (liberdade de expressão, lutas por igualdade, seja social, racial e de gênero)  o termo política é cada vez mais usado - desempenhado destaque em qualquer discussão. O Estado Democrático de Direito tem como premissa básica a cidadania transpassada pela livre atuação política. Neste contexto, diferente de tempos atrás, política se insere e se discute sim, talvez, não da forma "ideal", mas se discute.
             A política abrange-se por todos os campos da humanidade em que é necessária a relação, discussão e organização entre pessoas, bens e direitos - tanto na dimensão cultural quanto social-  que interligados precisam de delimitação e ordem, numa tessitura de conflito, dissenso e/ou consenso dos seus membros, através da persuasão e/ou dissuasão para o alcance de determinados fins. Estas imbricações, de relações sociais, se fazem através da interdependência e sistematização, institucionalizada ou não, nas formas mais diversas de organizações sociais ao longo da história. 
           Qualquer sociedade é inerentemente política, ou ainda, qualquer relação humana é política, o que muda é “modus operandi”, ou seja, são as maneiras que esta política é implementada e/ou usada.
         As diversas culturas que habitam (ou já habitaram) nosso planeta utilizam mecanismos políticos para entender e atender os diversos anseios, demandas e conflitos de seus partícipes. Bobbio (2000) irá ressaltar que:os fins da política são tantos quantas forem as metas a que um grupo organizado se propõe, segundo os tempos e as circunstâncias”. Este mesmo autor estabelecerá uma relação direta entre poder e política, derivando-os em poder econômico, poder ideológico, poder político entre outros, mas ressalta que apenas o político “funda-se sobre a posse dos instrumentos através dos quais se exerce a força física (armas de todo tipo e grau): é o poder coativo no sentido mais estrito da palavra”.
            Durante toda a História da humanidade, muitos valeram-se da política, ou do poder político,  para comandar/liderar e desta forma obter riquezas; escamotear a liberdade e os direitos de outros. Isto se deu através da articulação inerente entre poder e política, do poder de persuasão/carisma/liderança, mas, principalmente por meio da força/repressão, que sempre ajudou, inúmeras e incontáveis oportunidades, a transformar diversos personagens da História em déspotas.
            A institucionalização de funções e órgãos, as lideranças despóticas, carismáticas, legitimadas, populistas e etc. são, pois, produto e condição da estrutura política,  Weber diz que:

Há duas formas de exercer política. Pode-se viver “para” política ou pode-se viver “da” política. Nada há nada de exclusivo nessa dualidade. Até o contrário, geralmente se faz uma e outra coisa simultaneamente, tanto na idealidade quanto na prática.”(WEBER, 2009,68)

                A política nestes contornos,  se transformou em ferramenta de controle, cerceamento e opressão de povos. Aliando-se a outras forças (religião, preconceitos, interesses econômicos e etc.) legitimou de grandes obras a grandes genocídios, de grandes empreendimentos a grandes destruições. Por isso, muitos pensadores tentaram encontrar soluções para refrear a sede de poder dos homens através de teorias políticas.   
             Passamos contemporaneamente por um Estado político bem delimitado, instituições e órgãos, na maioria ou na teoria, bem definidos. Apesar de não ser perfeita a instituição dos Três Poderes (executivo, Legislativo e Judiciário) como proposta por Locke e Montesquieu, é seguida por muitos e diversos países em todo o globo. Da forma como foi pensado, tem como objetivo que a política/poder não se torne arma nas mãos de poucos e que estes venham usá-la contra o povo/maioria. Montesquieu (1996, p. 166), pensando nisto, relata que, “para que não se possa abusar do poder é necessário que, pela disposição das coisas, o poder trave o poder”.  Claro que sua teoria estava norteada pela manutenção do status quo de sua classe aristocrata, decadente a época, uma vez que a moderação e limitação são premissas essenciais para manter o equilíbrio e a passividade de uma sociedade.
         No entanto, muitos outros, ao contrario de Montesquieu, propuseram uma ruptura com o sistema político e econômico vigente. Dentre estes  destaca-se Karl Marx e sua sociedade “sem classes” e sem “exploração do homem pelo homem”. Ele diz:


                                       “No lugar da antiga sociedade burguesa com suas classes e oposições de  classe surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.”(Marx e Engels, 2001, p.62)

          Seu sistema teve como protótipo os levantes na França em 1948 que culminaram com o que ele chamou de 18 de Brumário de Luis Bonaparte[1] na frança. No entanto é em 1917 com a Revolução na Russa, com Marx já falecido, que se engendra o primeiro empreendimento socialista/comunista da história que será esteio não apenas de uma nova visão sobre o modo de produção da sociedade, mas pautará a política em todas as suas formas, o eminente historiador  Hobsbawm dirá que:

                                     “Contudo, a Revolução de Outubro teve repercussões muito mais profundas e globais que a sua ancestral. Pois se as ideias da Revolução Francesa, como é hoje evidente, duraram mais que o bolchevismo, as consequências práticas de 1917 foram muito maiores e mais duradouras que as de 1789. A Revolução de outubro produziu de longe o mais formidável movimento revolucionário organizado da história moderna. Sua expansão global não tem paralelo desde as conquistas do  islã  em seu primeiro século. Apenas trinta ou quarenta anos após a chegada de Lenin a estação   Finlândia  em Petrogrado, um terço da humanidade se achava vivendo sob o regimes diretamente derivados[...] do modelo organizacional de Lenin, o partido comunista.” (HOBSBAWM, 1995, P.62)

         O Bloco Socialista, mesmo com todos os equívocos, conseguiu - pelo menos durante quase um século - contrapor-se, politicamente, ao liberalismo/capitalismo e ser contra-hegemônico na dominação burguesa. Sua influência atingiu praticamente todo o globo e foi fator essencial para conquistas dos direitos civis, políticos e sociais que confluem para cidadania e para prática pluralista da política atual.
               Com o fim do bloco socialista, em 1989, e a chamada multipolarização do mundo, os rumos da política e sua pluralidade como defende Hannah Arendt, tiveram seus caminhos alterados. As ditas “relações políticas” se tornaram cada vez mais protagonistas no jogo de interesse nos diversos países no mundo. O modelo político socialista - cabe ressaltar as diversas vertentes, não apenas a soviética - continuou e continua como caminho político alternativo para o modelo em que vivemos, pois não apenas os modos de produção são antagônicos e dicotômicos em sua concepção, mas também a forma como a política é encarada, em outros extratos e contextos, a exemplo da economia, cultura, arte e os demais ramos da sociedade.
            Entre as mais diversas definições de política, a grande maioria dos pensadores e teóricos destaca o poder de sua compreensão e suas implicações sobre os mais diversos povos e sociedades. Os rumos de qualquer sociedade e da historia em si passa pela política.





  



MARX & ENGELS. Manifesto do partido comunista. LPM pocket, Floresta, 2001.
 MONTESQUIEU. O Espírito das Leis. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Tradução de Daniela Beccaccia Versiani. 11. ed. Rio de Janeiro: Elsevier,2000.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret, 2009.
HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos: o breve século XX. 1941-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
ARENDT, Hannah. O que é política. (editoria Ursula Ludz). 8ª ED. Rio de Janeiro.: Bertrand Brasil, 2009.





[1] O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (em alemão: "Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte"), escrito entre dezembro de 1851 e março de 1852, publicado originalmente na revista Die Revolution, parte da análise concreta dos acontecimentos revolucionários em França, entre 1848 e 1851, que levaram ao golpe de estado pelo qual Napoleão III se nomeou imperador, à semelhança de seu tio Napoleão. (Disponivel em:< http://pt.wikipedia.org/wiki/O_18_de_Brum%C3%A1rio_de_Lu%C3%ADs_Bonaparte> Acessado em: 23.05.2013)

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