Movimento Negro,
Cabelos crespos e a mídia brasileira - Parte I.
Foi e é árdua a luta dos movimentos
negros pelos direitos de cidadania e identidade, colocando-se nessa
última o pacote de suas orientações religiosas/religiosidade até a aceitação da
estética negra como sinônimo, também, de beleza.
Caso interessante perpassa
atualmente pela estética negra. Nos últimos anos a afirmação dos cabelos
crespos, encaracolados ou black powers vem crescendo vertiginosamente, em
proporção direta ao número de artistas que agora ostenta a cabeleira “natural”.
É preciso ressaltar que esta é uma luta de anos do movimento negro, mas que só
foi abarcada pela população graças a mídia televisiva.
Dos poderes imperativos que
conformam a mídia brasileira (principalmente o canal do "plim
plim") alguns perderam força, outros no entanto se robusteceram
ainda mais pela ótica multiculturalista, a dizer principalmente no que tange as
tendências da moda.
Para muitos a influência da mídia
na vida das pessoas é quase inócua e que as superfinanciadas novelas nada tem a
ver com a população e suas predileções seja politicas, identitárias e etc. Sem
querer entrar no maniqueísmo de sua função social, vemos e sentimos no
dia-a-dia as reverberações das novelas que atualmente ocupam praticamente a
grade de programação inteira da emissora com maior audiência do país.
A assunção dos cabelos crespos
principalmente no caso das mulheres, parcela que mais diretamente é pressionada
pela padronização caucasiana do corpo, é um ato de empoderamento que em todos
os casos deve ser celebrado.
Entretanto, além obviamente de
ser um fenômeno interessante, principalmente, para os negros, também demonstra
a força tanto de assimilação quanto de manipulação da mídia “tradicional” em
relação as demandas da sociedade. É notório que este fenômeno se popularizou a
partir do surgimento na televisão de sujeitos empoderados ou não com os “cabelos
assumidos”.
Explico mais uma vez que não é
uma orientação que surgiu do nada, como disse acima, o Movimento Negro (e
também de mulheres) lutou e luta pela aceitação de sua "liberdade
estética" pela sociedade. Neste caso o que é temerário é cooptação da
demanda histórica, que na verdade sempre teve um caráter no mínimo triplo, seja
o propriamente estético, mas também, e da mesma forma importante, cultural e
político.
No viés que se manifesta os
“cachos”, em grande parte dos casos, privilegia-se apenas o lado estético, que
é de todas as formas importante, mas não suficiente. É necessário o
fortalecimento multidimensional da identidade negra numa ótica de
reconhecimento do sujeito negro e a contestação da concretude de subordinação que ainda
se mantém, e em outros aspecto, como pensa Frantz Fanon, da liberdade de
escolha e opções estéticas/politicas enquanto ser humano.
Num país onde impera um racismo
estrutural e tácito, é importante o posicionamento estético dos negros, mas
também é necessária a politização e conscientização do cenário racista em que
estamos inseridos. Não podemos nos afundar ainda mais nas garras dos simulacros
de identidade que transfiguram uma demanda legítima em apenas mais um item de
consumo. O vínculo com a realidade deve ser peça viva em detrimento do que Baudrillard vai
chamar de hiper-realidade (simulacros de simulacros onde a ação não mais tem a
ver com o sujeito ou objeto em si, é apenas encenação vazia). Um perigo
concreto que vivemos, ainda mais com a cooptação de pautas de movimentos
sociais, sejam clássicos ou novos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário